{"id":509,"date":"2018-09-07T17:35:07","date_gmt":"2018-09-07T17:35:07","guid":{"rendered":"http:\/\/rafaelarigoni.com\/?p=509"},"modified":"2020-07-05T21:38:43","modified_gmt":"2020-07-05T21:38:43","slug":"morar-no-exterior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rafaelarigoni.com\/pt-br\/2018\/09\/07\/morar-no-exterior\/","title":{"rendered":"Morar no exterior"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco falei com uma pessoa que me perguntava como \u00e9 morar fora do Brasil.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Deve ser \u00f3timo morar na Europa!&#8217;<\/strong>, ela dizia. <strong>&#8216;Olha, depende&#8217;<\/strong>, eu disse.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-535 aligncenter\" src=\"http:\/\/rafaelarigoni.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/GIPHY-1.gif\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"395\"><\/p>\n<p>Ta\u00ed uma pergunta dif\u00edcil de responder.<\/p>\n<p><strong>Tem uma complexidade que habita o corpo e a alma do ser imigrante, e n\u00e3o d\u00e1 pra generalizar uma experi\u00eancia que \u00e9 t\u00e3o singular.<\/strong><\/p>\n<p>&#8216;Posso falar como foi pra mim&#8217;&#8230;, respondi.<\/p>\n<p>Ha quase uma d\u00e9cada (gente, como passa depressa!) eu sa\u00ed do Brasil e vim morar na Holanda, para fazer um doutorado. O plano era passar o primeiro ano aqui, de repente um ano e meio, e voltar pra casa, terminar por l\u00e1. Na transi\u00e7\u00e3o entre aeroportos, me dei conta mais uma vez de que estava deixando tudo o que&nbsp;eu&nbsp;conhecia da vida, pra cruzar o oceano,&nbsp;e&nbsp;aterrissar em um&nbsp;continente onde nunca havia estado antes. As \u00fanicas coisas familiares que me acompanhavam, al\u00e9m do meu corpo e pensamentos, era o conte\u00fado das minhas 2 malas, com 30kg cada uma. As malas traziam minhas roupas, minha prote\u00e7\u00e3o \u2013 muitas que n\u00e3o tiveram a menor utilidade no clima da nova terra. Traziam tamb\u00e9m alguns pertences pessoais que me pareceram&nbsp;fundamentais&nbsp;\u2013&nbsp;fotos de pessoas queridas, meu pr\u00f3prio travesseiro, uma cuia de chimarr\u00e3o, e um pequeno estoque de erva mate.&nbsp;Eu trazia s\u00edmbolos do meu suporte, meu porto seguro de descanso,&nbsp;e das&nbsp;minhas ra\u00edzes.&nbsp;<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Na nova terra, na casa tempor\u00e1ria, as&nbsp;malas ficaram&nbsp;embaixo da cama por pouco mais de uma semana, enquanto eu rodei os arredores e comecei a conhecer as pessoas em volta e a Universidade onde ficaria trabalhando. Um&nbsp;mundo&nbsp;muito diferente, muito&nbsp;interessante, que rendeu muitos \u2018uau!\u2019s\u2019&nbsp;e&nbsp;outros tantos&nbsp;estranhamentos. J\u00e1 na primeira semana&nbsp;conheci pessoas de uns 20 pa\u00edses&nbsp;diferentes,&nbsp;alguns&nbsp;que eu nem sabia que&nbsp;existiam. Comi quitutes de&nbsp;Bangladesh, da&nbsp;\u00edndia, do Equador. Andei num sistema de transporte diferente, comecei a estudar num sistema de ensino diferente. Comecei a ver, maravilhada, <a href=\"https:\/\/www.ducsamsterdam.net\/da-relacao-entre-limpar-proprio-banheiro-abrir-sem-medo-mac-book-onibus\/\" rel=\"noopener\">como \u00e9 viver num pa\u00eds com uma baixa desigualdade social<\/a>. Tanta novidade que faltava tempo pra absorver e palavras para contar.<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>No meio dessa excita\u00e7\u00e3o, lembro como se fosse hoje que n\u00e3o pude entender muito bem as l\u00e1grimas que rolaram&nbsp;quando desfiz as malas para arrumar o novo quarto de estudante onde estava. Depois de um tempo caiu a ficha. Por mais emocionante que a nova aventura fosse, e por mais que fosse pra ser tempor\u00e1ria, eu sentia uma enorme falta dos bra\u00e7os das pessoas e do mundo conhecidos. Queria abra\u00e7ar a fam\u00edlia e os amigos, n\u00e3o s\u00f3 os ver por Skype. Queria falar minha l\u00edngua,&nbsp;sentir o calor do sol,&nbsp;comer picanha,&nbsp;sair por a\u00ed sabendo como chegar nos lugares. Queria andar pela rua e encontrar faces&nbsp;familiares, n\u00e3o aquelas que&nbsp;eu&nbsp;tinha conhecido ontem, mas aquelas que&nbsp;eu&nbsp;conhecia h\u00e1 10 anos, e que dispensavam apresenta\u00e7\u00f5es. Novidade incessante&nbsp;cansa.<\/p>\n<p><strong>Nas horas&nbsp;dif\u00edceis, me perguntava&nbsp;\u2018Porque mesmo vim&nbsp;pra c\u00e1?\u2019,&nbsp;\u2018Porque&nbsp;n\u00e3o vou embora?\u2019.&nbsp;E \u00e0s vezes, sem reposta, s\u00f3 a teimosia me segurava. \u2018Quis vir? Agora&nbsp;aguenta!\u2019,&nbsp;ela dizia, \u2018Sem essa de desistir\u2019. &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_520\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-520\" class=\"wp-image-520 size-medium\" src=\"http:\/\/rafaelarigoni.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/daniel-apodaca-804211-unsplash-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/rafaelarigoni.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/daniel-apodaca-804211-unsplash-225x300.jpg 225w, https:\/\/rafaelarigoni.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/daniel-apodaca-804211-unsplash-768x1023.jpg 768w, https:\/\/rafaelarigoni.com\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/daniel-apodaca-804211-unsplash-769x1024.jpg 769w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><p id=\"caption-attachment-520\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">Photo by Daniel Apodaca on Unsplash<\/span><\/p><\/div>\n<p>E fiquei. Estudei, aprendi, ampliei meus horizontes profissionais. E a vida andou e me jogou num rumo diferente do que eu tinha planejado. Ao inv\u00e9s de um ano fui ficando 2, 3, 5&#8230; Rodei quil\u00f4metros, visitei lugares incr\u00edveis, conheci pessoas de tantas culturas e tantos pa\u00edses que n\u00e3o tive outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o&nbsp;me tornar imensamente mais flex\u00edvel&nbsp;e mais rica. Um tipo de riqueza interna,&nbsp;que n\u00e3o perece.&nbsp;O tempo passou,&nbsp;e aos poucos&nbsp;constru\u00ed la\u00e7os,&nbsp;espa\u00e7os e familiaridade.&nbsp;Depois de alguns anos, uns bons anos, comecei a chamar a Holanda de casa. Uma casa diferente da casa brasileira,&nbsp;porque n\u00e3o traz a&nbsp;cultura na qual nasci e cresci. Uma casa que me faz&nbsp;ter que me&nbsp;reinventar&nbsp;e (des)aprender regras&nbsp;do mundo do trabalho, social e familiar. Levei muita cara&nbsp;de susto&nbsp;at\u00e9&nbsp;entender, por exemplo, que n\u00e3o d\u00e1 pra sair abra\u00e7ando todo mundo assim de cara&nbsp;(N\u00e3o!!). Um modesto aperto de m\u00e3o \u00e9 mais que suficiente pra um primeiro encontro. Tem regra tamb\u00e9m pra quando \u00e9 poss\u00edvel j\u00e1 sair dando os 3 beijinhos.&nbsp;E algumas regras demora aprender, porque elas n\u00e3o est\u00e3o escritas,&nbsp;e&nbsp;ningu\u00e9m explica (a n\u00e3o ser talvez outro imigrante como o mesmo background&nbsp;cultural que o seu). O neg\u00f3cio \u00e9 botar a cara a tapa.&nbsp;<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>E a\u00ed foi at\u00e9 estranho&nbsp;quando chegou um momento em que novas regras se tornaram familiares.&nbsp;E quando reconheci que algumas das minhas caracter\u00edsticas, que trouxe comigo, tem mais espa\u00e7o e s\u00e3o melhor acolhidas aqui. J\u00e1 outras n\u00e3o. Algumas vezes, \u00e9 como ter um bot\u00e3o que, quando gira pra um lado entra no \u2018modo Brasil\u2019, quando gira pro outro entra no \u2018modo Holanda\u2019. E fica tudo bem, tipo um carro&nbsp;flex&nbsp;que se adapta ao combust\u00edel dispon\u00edvel nos arredores. Outras vezes o bot\u00e3o n\u00e3o gira,&nbsp;<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">&nbsp;o sistema emperra, e o carro n\u00e3o anda pra lado nenhum, n\u00e3o se reconhece.<\/span><\/p>\n<p><strong>Ser imigrante, pra mim, \u00e9 estar neste eterno \u201centre\u201d.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 alargar os horizontes, conhecer novas pessoas, id\u00e9ias, lugares, mas&nbsp;\u00e9 tamb\u00e9m&nbsp;abrir m\u00e3o do conforto e da seguran\u00e7a de estar perto da&nbsp;fam\u00edlia, dos amigos de longa data, da cultura raiz. \u00c9 muitas vezes me sentir s\u00f3, e&nbsp;a\u00ed lembrar de todos que passaram e deixaram um pouco mais de beleza, diversidade, e amor na minha vida, e me sentir cercada de amigos por todos os lados do&nbsp;planeta!&nbsp;\u00c9 abrir&nbsp;espa\u00e7o pra me reinventar,&nbsp;reconhecer e aprender. \u00c9 fazer pontes entre mundos, e&nbsp;achar o sentido das palavras \u201ccasa\u201d e \u201cpertencimento\u201d dentro de mim mesma.&nbsp;<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Ufa!&nbsp;Morar&nbsp;fora \u00e9 intenso.<\/p>\n<p><strong>A rapadura \u00e9 dura e \u00e9 doce. D\u00e1 pra escolher em qual dessas duas caracter\u00edsticas a gente quer focar, mas n\u00e3o d\u00e1 pra negar que as duas est\u00e3o ali, lado a lado. <\/strong><\/p>\n<p>Cada um tem sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Gratid\u00e3o por todos que cruzaram meu caminho, e pelo aprendizado que desacomoda.<\/p>\n<p>Beijos! (que no Brasil pode&nbsp;?)<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n\n<div class=\"twitter-share\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?via=RigoniRafaela\" class=\"twitter-share-button\">Tweet<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco falei com uma pessoa que me perguntava como \u00e9 morar fora do Brasil. &#8216;Deve ser \u00f3timo morar na Europa!&#8217;, ela dizia. &#8216;Olha, depende&#8217;, eu disse. 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