Software para análise de dados qualitativos – pontos positivos e negativos

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Comecei a pesquisar quando "cortar e colar" significava literalmente usar tesoura e cola. Analisar dados qualitativos envolvia transcrever entrevistas gravadas em fita cassete. Em seguida, à mão, sublinhávamos os temas importantes com marcadores coloridos, utilizando cores diferentes para diferentes temas. Em um certo ponto, cortávamos as partes sublinhadas, e colávamos aquelas com cores semelhantes lado a lado, em novos documentos. Então, comparávamos as partes com cores semelhantes para verificar se tinham significado semelhante e se nossos códigos temáticos e categorias eram robustos.

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Sim, estou velha. E, felizmente, a análise de dados qualitativos conta com muitos recursos novos e úteis nos dias de hoje. Pense em programas como Atlas.ti, NVivo, MAXQDA,e tantos outros. O uso de software de análise de dados, no entanto, ainda pode parecer assustador para muitos pesquisadores qualitativos. Pode parecer complicado, mecânico, e não adequado para trazer à tona o melhor do material profundo e das nuances que coletamos em entrevistas qualitativas. No entanto, voltar ao antigo cortar e colar, ou mesmo construir complexas tabelas em excel não é necessariamente melhor ou mais produtivo. Pelo contrário.

Usei pela primeira vez um software qualitativo de análise de dados em 2010, quando comecei a analisar dados para meu doutorado. Usei o Atlas.ti.

Estas foram minhas primeiras impressões, como uma novata no campo da tecnologia:

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Pontos positivos:

    • Mais controle. O software lhe dá mais controle sobre seus dados e torna a organização de dados muito mais fácil do que o antigo "cortar e colar" no papel.
    • É mais fácil encontrar e comparar dados. Você tem todos os dados (entrevistas, literatura, etc) em um único arquivo. As ferramentas de pesquisa facilitam encontrar o que você precisa, e também facilitam a comparação entre códigos e categorias.
    • Diário de análise. Você pode manter um registro das suas interpretações analíticas e decisões através do programa (registrando-as em memos) enquanto codifica as categorias.
    • Mais confiabilidade. Esse controle ajuda você a ser mais confiável como pesquisador, e aprender com seus acertos e erros. Também ajuda a ser claro e transparente com colegas sobre decisões analíticas num eventual trabalho em grupo.
    • Você ainda é quem manda e decide sobre tudo. O trabalho interpretativo é o mesmo: não é o software quem decide, é você, com seu cérebro e habilidades como pesquisador. O software facilita sua vida, mas não interpreta as coisas por você.

    Pontos negativos:

    • Leva tempo. Se é sua primeira vez usando um software de análise de dados qualitativo, saiba que leva tempo. Você vai aprender enquanto faz, mas é melhor iniciar o processo de aprendizagem antes de precisar fazer a análise pra valer, e de estar sob pressão pra finalizar o projeto. Leva tempo para aprender os recursos do programa e entender como ter mais benefícios com sue uso.
    • Muita tela de computador! É uma questão de preferência pessoal, mas às vezes acho útil voltar ao estilo antigo e trabalhar no papel. Senão passo muito tempo somente olhando pra tela do computador. Você pode facilmente trabalhar parte no computador e parte no papel. É só imprimir listas de categorias, citações ou notas sobre a análise e ler fora do computador.
    • Você pode ficar preso em detalhes técnicos. Se você é um nerd como eu, você pode correr o risco de ficar preso em tentar aprender TUDO sobre o programa. Isso pode ser uma tarefa para toda a vida. Tenha em mente que alguns recursos do programa podem não ser úteis para você, e então é melhor nem se incomodar em tentar aprender.
    • É caro. A maioria dos pesquisadores acaba usando o software que sua instituição disponibiliza, então não precisa pagar pelo programa individualmente. Pode acontecer, no entanto, que ao mudar de instituição, você acabe não tendo mais acesso ao mesmo software, mas a um outro. Nesse caso, você pode acabar perdendo acesso aos dados e análises que fez nas suas pesquisas no software antigo. E vai ter que investir em aprender um novo programa. Atualmente, alguns programas (como o NVivo) suportam a transferência de bancos de dados de diferentes softwares; acredito e espero que essa tendência aumente no futuro.
    Atlas.ti network feature

    Considerando todos os prós e contras, achei o saldo positivo. Até o momento, continuo usando software de análise de dados qualitativos e experimentando com diferentes programas. Para mim, o mais importante é encontrar aquilo que funciona melhor para cada um de nós como pesquisadores, respeitando nosso estilo e preferências, bem como os diferentes projetos de pesquisa que temos. Alguns pesquisadores podem usar o software apenas para o processo de categorização, ou como um banco de dados para organizar uma revisão de literatura. Outros podem usar durante todo o processo de pesquisa, e como um banco de dados para coletar todos os materiais. Os programas geralmente suportam uma variedade de arquivos: texto, PDF, imagem, vídeo, áudio, geodados e mídias sociais, o que oferece muita flexibilidade. Praticamente todos programas suportam o trabalho em grupo, o que é muito útil para projetos de pesquisa com parceiros em países diferentes.

    Independente do que você escolher, lembre-se que o software é uma ferramenta desenvolvida para ajudar na análise de dados. Pode custar mais tempo no início, mas a médio prazo, deve trazer um valor agregado. Se esse não for o caso, pode ser melhor de usar um programa ou método diferente.

    Quer mais dicas? Confira em breve um post sobre como usar o Atlas.ti para fazer análise de discurso.

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