Morar no exterior

This post is also available in: English (Inglês)

Há pouco falei com uma pessoa que me perguntava como é morar fora do Brasil.

‘Deve ser ótimo morar na Europa!’, ela dizia. ‘Olha, depende’, eu disse.

Taí uma pergunta difícil de responder.

Tem uma complexidade que habita o corpo e a alma do ser imigrante, e não dá pra generalizar uma experiência que é tão singular.

‘Posso falar como foi pra mim’…, respondi.

Ha quase uma década (gente, como passa depressa!) eu saí do Brasil e vim morar na Holanda, para fazer um doutorado. O plano era passar o primeiro ano aqui, de repente um ano e meio, e voltar pra casa, terminar por lá. Na transição entre aeroportos, me dei conta mais uma vez de que estava deixando tudo o que eu conhecia da vida, pra cruzar o oceano, e aterrissar em um continente onde nunca havia estado antes. As únicas coisas familiares que me acompanhavam, além do meu corpo e pensamentos, era o conteúdo das minhas 2 malas, com 30kg cada uma. As malas traziam minhas roupas, minha proteção – muitas que não tiveram a menor utilidade no clima da nova terra. Traziam também alguns pertences pessoais que me pareceram fundamentais – fotos de pessoas queridas, meu próprio travesseiro, uma cuia de chimarrão, e um pequeno estoque de erva mate. Eu trazia símbolos do meu suporte, meu porto seguro de descanso, e das minhas raízes.  

Na nova terra, na casa temporária, as malas ficaram embaixo da cama por pouco mais de uma semana, enquanto eu rodei os arredores e comecei a conhecer as pessoas em volta e a Universidade onde ficaria trabalhando. Um mundo muito diferente, muito interessante, que rendeu muitos ‘uau!’s’ e outros tantos estranhamentos. Já na primeira semana conheci pessoas de uns 20 países diferentes, alguns que eu nem sabia que existiam. Comi quitutes de Bangladesh, da índia, do Equador. Andei num sistema de transporte diferente, comecei a estudar num sistema de ensino diferente. Comecei a ver, maravilhada, como é viver num país com uma baixa desigualdade social. Tanta novidade que faltava tempo pra absorver e palavras para contar. 

No meio dessa excitação, lembro como se fosse hoje que não pude entender muito bem as lágrimas que rolaram quando desfiz as malas para arrumar o novo quarto de estudante onde estava. Depois de um tempo caiu a ficha. Por mais emocionante que a nova aventura fosse, e por mais que fosse pra ser temporária, eu sentia uma enorme falta dos braços das pessoas e do mundo conhecidos. Queria abraçar a família e os amigos, não só os ver por Skype. Queria falar minha língua, sentir o calor do sol, comer picanha, sair por aí sabendo como chegar nos lugares. Queria andar pela rua e encontrar faces familiares, não aquelas que eu tinha conhecido ontem, mas aquelas que eu conhecia há 10 anos, e que dispensavam apresentações. Novidade incessante cansa.

Nas horas difíceis, me perguntava ‘Porque mesmo vim pra cá?’, ‘Porque não vou embora?’. E às vezes, sem reposta, só a teimosia me segurava. ‘Quis vir? Agora aguenta!’, ela dizia, ‘Sem essa de desistir’.   

Photo by Daniel Apodaca on Unsplash

E fiquei. Estudei, aprendi, ampliei meus horizontes profissionais. E a vida andou e me jogou num rumo diferente do que eu tinha planejado. Ao invés de um ano fui ficando 2, 3, 5… Rodei quilômetros, visitei lugares incríveis, conheci pessoas de tantas culturas e tantos países que não tive outra opção senão me tornar imensamente mais flexível e mais rica. Um tipo de riqueza interna, que não perece. O tempo passou, e aos poucos construí laços, espaços e familiaridade. Depois de alguns anos, uns bons anos, comecei a chamar a Holanda de casa. Uma casa diferente da casa brasileira, porque não traz a cultura na qual nasci e cresci. Uma casa que me faz ter que me reinventar e (des)aprender regras do mundo do trabalho, social e familiar. Levei muita cara de susto até entender, por exemplo, que não dá pra sair abraçando todo mundo assim de cara (Não!!). Um modesto aperto de mão é mais que suficiente pra um primeiro encontro. Tem regra também pra quando é possível já sair dando os 3 beijinhos. E algumas regras demora aprender, porque elas não estão escritas, e ninguém explica (a não ser talvez outro imigrante como o mesmo background cultural que o seu). O negócio é botar a cara a tapa.  

E aí foi até estranho quando chegou um momento em que novas regras se tornaram familiares. E quando reconheci que algumas das minhas características, que trouxe comigo, tem mais espaço e são melhor acolhidas aqui. Já outras não. Algumas vezes, é como ter um botão que, quando gira pra um lado entra no ‘modo Brasil’, quando gira pro outro entra no ‘modo Holanda’. E fica tudo bem, tipo um carro flex que se adapta ao combustíel disponível nos arredores. Outras vezes o botão não gira,  o sistema emperra, e o carro não anda pra lado nenhum, não se reconhece.

Ser imigrante, pra mim, é estar neste eterno “entre”. 

É alargar os horizontes, conhecer novas pessoas, idéias, lugares, mas é também abrir mão do conforto e da segurança de estar perto da família, dos amigos de longa data, da cultura raiz. É muitas vezes me sentir só, e aí lembrar de todos que passaram e deixaram um pouco mais de beleza, diversidade, e amor na minha vida, e me sentir cercada de amigos por todos os lados do planeta! É abrir espaço pra me reinventar, reconhecer e aprender. É fazer pontes entre mundos, e achar o sentido das palavras “casa” e “pertencimento” dentro de mim mesma.  

Ufa! Morar fora é intenso.

A rapadura é dura e é doce. Dá pra escolher em qual dessas duas características a gente quer focar, mas não dá pra negar que as duas estão ali, lado a lado.

Cada um tem sua experiência.

Gratidão por todos que cruzaram meu caminho, e pelo aprendizado que desacomoda.

Beijos! (que no Brasil pode 😉) 

Comments

  1. Having u in my life has been very important. Glad u are here…glad u have learnt a lot..and sorry for the difficult parts. ..but they are good for learning also.

    Hope and am sure we will be friends..pra sempre!!

    1. Author

      Dear Lee, thank you so much for your friendship, understanding, and for being there! Cheers to many more days of looking life pass by at the Albertcuyp!

  2. Belo depoimento! Em algumas partes me identifico por ser imigrante dos EUA no Brasil. Mas, a grande diferença é metade da minha família é brasileira. Talvez escrevo sobre minha experiência também que pode chegar até do tamanho de um livro! Abraços.

Deixe uma resposta para Aline Simões Cancelar resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.